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-439 DIAS PARA O CARNAVAL 2011

 

 

Postado por Pedro Migão | 07/03/12 - 09:15

gestão do carnaval

Uma Proposta para a Nova Lesga

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Após alguma ausência, a nossa coluna está de volta. Mas escrevi bastante sobre o carnaval 2012 no Ouro de Tolo. .

Mas não falemos de desfiles e sambas históricos hoje. Vamos falar um pouco desta grande confusão que se tornaram os Grupos de Acesso, em especial o Acesso A, neste ano de 2012.

Quem leu o post sobre o balanço deste carnaval 2012 no Ouro de Tolo sabe que os resultados dos Grupos de Acesso, em especial o Acesso A, foram no mínimo esquisitos. Como resultado a Lesga, entidade que organiza o desfile destes grupos, foi descredenciada pela Prefeitura do Rio de Janeiro e não mais organiza os desfiles dos Grupos de Acesso A e B.

Além disso, o resultado ainda não foi homologado e o Acesso A corre inclusive o risco - embora eu não acredite - de ter sua classificação final anulada, até porque há indícios de manipulação nas notas. O jornal Extra mostrou inclusive que noivos julgaram estes grupos, em quesitos diferentes e dando notas exatamente iguais para as mesmas escolas, entre outras coisas.

Ontem alguns gaiatos, em tom de brincadeira, lançaram o meu nome para a Presidência desta nova entidade que irá substituir a Lesga na organização dos desfiles. Obviamente a meu ver é uma grande gozação, mas me motivou a escrever algumas linhas sobre o que seria uma proposta séria, ou ideal, para a nova entidade. Divido aqui com os leitores estas linhas.

Penso que a retomada da credibilidade destes grupos passa por quatro grandes ítens, a saber: a organização dos desfiles, a governança, o marketing e a parte artística. Passemos a cada uma delas.

1) Organização dos Desfiles

Antes de mais nada, regras claras e transparentes desde o início do processo. Afastamento direto dos presidentes das agremiações sobre quaisquer aspectos que envolvam a organização da entidade e dos desfiles. Os mandatários devem cuidar da preparação de suas escolas e ter o suporte da nova entidade em tudo o que for necessário.

Profissionalizar a gestão da entidade, com determinação de metas, aferição de resultados e sistema de consequências. Pautar as ações com o máximo de transparência possível. Estabelecer uma relação institucional e republicana com os demais atores e instituições envolvidas no processo.

Buscar uma forma mais moderna de venda de ingressos, em especial o processo relacionado às frisas. Manter a política de cobrar ingressos populares nas arquibancadas. Zelar pelos horários e pela parte artística. Estabelecer um sistema de ordem de desfile que conjugue o sorteio com os interesses mercadológicos do produto. Estabelecer negociações com a Liesa a fim de retomar o sistema "sobem duas, descem duas" para o Grupo Especial.

Negociar a construção de uma segunda "Cidade do Samba", a fim de que as agremiações possam ter um lugar com toda a infra estrutura necessária para prepararem seus desfiles.
Profissionalizar a gestão da entidade, com a contratação de especialistas nas suas áreas, com metas, responsabilidades e cobrança por resultados.

2) Governança

Estabelecer regras de governança para as escolas, com estabelecimento de controles internos, exigência de orçamentos estruturados, padronização de normas e contratações de bens e serviços e transparência na divulgação dos dados. Estabelecer regras para a entidade e o julgamento dos desfiles de forma a garantir a lisura, sem distorções e respeitando a qualidade dos desfiles no resultado final.

Incentivar a profissionalização das escolas através de um sistema de incentivos. Colocar a prestação de contas na internet e exigir o mesmo das agremiações integrantes. Observar o cumprimento das leis trabalhistas, fiscais e das normatizações sobre Segurança e Saúde do Trabalho.

3) Marketing

Negociar com a prefeitura um aumento da subvenção, ficando esta condicionada à apresentação de orçamento prévio e prestações regulares de contas, parciais e final. Buscar melhor rentabilização dos contratos de televisão e ter um contrato de distribuição amplo dos cds. Estabelecer um contrato de licenciamento único para todas as escolas, buscando a venda de produtos, camisas e serviços envolvendo a marca de cada agremiação.

Auxiliar na rentabilização das quadras de ensaios e no estabelecimento de contratos com cervejarias, em especial para o Acesso A. Regularizar o domínio da marca de cada instituição, tornando-a patrimônio de fato das mesmas.

4) Parte Artística

Montar um quadro de jurados com pessoas especialistas e sem estarem ligadas a quaisquer agremiações. Alterar o sistema de julgamento a fim de não somente serem "fiscais de erros" como premiarem a criatividade e a excelência. Ombrear a importância dos quesitos plásticos e os técnicos.

Fazer a preparação dos jurados de forma constante e com cursos de longa duração. Preparar 80 jurados e escolher 40 deles por sorteio no dia do desfile para fazerem o julgamento. Divulgar as justificativas na sexta feira após o carnaval. Estudar formas de lançamento eletrônico das notas.

Em poucas palavras, estas linhas a meu ver já iriam melhorar bastante todo o processo que envolve os grupos de Acesso da Sapucaí, pois trariam credibilidade e objetividade a tudo o que envolve estes desfiles.

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Postado por Pedro Migão | 10/01/12 - 14:02

mocidade independente 1982

O Velho Chico

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Depois de uma longa ausência devido à absoluta falta de tempo para fazer a pesquisa adequada, nossa coluna "Samba de Terça" está de volta com um texto inédito.

Atendendo à sugestão do jornalista e comentarista de carnaval Fábio Fabato, meu colega neste "Galeria do Samba", nosso tema de hoje é uma composição pouco lembrada, mas que tem o seu valor: "O Velho Chico", Mocidade Independente 1982. Fabato também cedeu as imagens que aparecem aqui e no post original do Ouro de Tolo , a quem agradeço desde já.

E antes de entrar no tema de nosso post, uma informação aos leitores: o "Jornal do Brasil" digitalizou todo o seu arquivo de 1930 a 2000, em parceria com o Google. É uma fonte de pesquisa preciosa, ainda mais em termos de escolas de samba, onde o jornal O Globo, dono de um acervo riquíssimo, não o disponibiliza ao público.

Em 1982 a Mocidade optou por contar a história do Rio São Francisco como se fosse um ser humano: "O Velho Chico". O genial Fernando Pinto, que assinara o carnaval da escola nos dois anos anteriores, optara por se transferir para a Mangueira, o que não deixa de ser curioso - uma escola tão tradicional com um carnavalesco tão inovador.

A escola vinha de um sexto lugar no ano anterior, com um enredo sobre o carnaval. A verde e branca ainda se ressentia da morte do inesquecível Mestre André, que inventou a "paradinha de bateria" e tornara a bateria da escola de Padre Miguel a mais famosa da cidade. Ele faleceu prematuramente em 1980, aos 48 anos, e sua perda tirara a principal referência da agremiação - apesar de naquele momento a escola já se notabilizasse também pela marca imposta por Fernando Pinto.

Naquele ano, inclusive, Andrezinho - este mesmo que foi do grupo Molejo e hoje é um dos diretores da bateria da escola - com 10 anos de idade veio à frente dos ritmistas, junto com os Mestres Cinco, Coteca e Bira. A carnavalesca seria Maria Carmen de Souza.

Ao contrário do que se pensa, naquela época as sinopses também eram bastante extensas. Na série de imagens que disponibilizo no Ouro de Tolo , estão a sinopse, a ficha técnica e o roteiro de desfile, além do samba - que colocarei mais à frente. A idéia foi dividir o enredo em três partes: o "menino" (representado pela nascente, o "moço" (o médio rio) e o "velho", a parte final. Isso atendia também à exigência do regulamento daquele ano, de que somente poderia haver três carros alegóricos.

Uma curiosidade é que aparecem os nomes dos profissionais de barracão na ficha técnica, o que hoje seria absolutamente impensável dada a quantidade de trabalhadores. É uma boa medida de como o carnaval gradativamente foi dando maior importância à parte plástica com o decorrer do tempo.

A preparação para este carnaval de 1982 passou por alguns percalços. Antes do desfile houve uma operação de repressão por parte do Estado ao jogo do bicho, o que diminuiu a verba destinada às escolas - naquela época a dependência das agremiações de seus "patronos" era muito maior.

Outro ponto é que devido a um acidente ocorrido no ano anterior foram proibidos destaques vivos sobre os carros alegóricos, bem como estes foram reduzidos a apenas três. Como veremos no final do texto, isso causaria uma grande confusão na apuração deste ano.

O pré carnaval daquele ano também foi marcado pelo sucesso absoluto do samba do Império Serrano, "Bumbum baticumbum prugurundum", que era uma crítica aos rumos que os desfiles estavam tomando, sob a liderança naquele momento de Joãosinho Trinta.

A Mocidade Independente foi a nona escola a desfilar na manhã de segunda feira de carnaval, 22 de fevereiro de 1982. Castor de Andrade, patrono da escola, retardou a entrada da Mocidade na avenida, a fim de diminuir o impacto causado pelo grande desfile da Portela, a agremiação anteriora.

À frente da escola, junto a Castor veio o diretor da Globo Edvaldo Pacote, que já fora vice presidente da escola e hoje "era apenas diretor", nas palavras do Jornal do Brasil. Como o leitor pode notar, a estratégia atual da Grande Rio não é exatamente nova...

A bateria fez as suas famosas "paradinhas" apenas no início do desfile, mantendo-se preocupada com a cadência no restante. Foram 2,8 mil componentes, com três carros e dez destaques de chão. Com a restrição a três carros alegóricos, as escolas optaram por alegorias de mão, e a Mocidade não foi diferente.

Note o leitor também, aliás, que as arquibancadas desmontáveis daquele ano possuíam cobertura. Por que então trinta anos depois somos obrigados a pegar chuva no Sambódromo? Só porque o projeto de Oscar Niemeyer é intocável?

E olha que o ingresso não é barato...

Voltando ao desfile da verde e branca, a escola desfilou compacta e se credenciou a um bom resultado na apuração da quarta feira de cinzas, embora não fosse uma das principais favoritas - Imperatriz, Portela e Império Serrano dividiam as atenções dos analistas, com a Beija Flor um pouco abaixo e então Ilha e Mocidade. O samba passou a contento, sendo um dos pontos altos do desfile.

A contagem de pontos foi rodeada por uma grande confusão. Imperatriz e Beija Flor desrespeitaram o ítem do regulamento que proibia pessoas vivas em cima dos carros alegóricos, bem como a última trouxe sete alegorias, ignorando o limite determinado.

Isso custou caro à Imperatriz, que foi punida em seis pontos no quesito Alegorias e acabou perdendo o título exclusivamente por causa disto. A Beija Flor também sofreu punições devido a isto e acabou no sexto lugar, a pior colocação desde que Joãosinho chegara à escola. No post do Ouro de Tolo o leitor poderá ver o mapa de notas original daquele ano, reproduzido do jornal do Brasil .

A Mocidade acabou apenas no sétimo lugar, com 176 pontos e a 11 da campeã Império Serrano. Os quesitos Mestre Sala e Porta Bandeira e Conjunto tinham peso menor que os outros naquele ano, e a Mocidade foi punida especialmente nos quesitos Evolução e Fantasia.

O curioso foi o protesto dos patronos da Beija Flor e da Imperatriz, respectivamente Anísio e Luizinho Drummond, dizendo que foram "roubados". Anísio, inclusive, dizia que em 83 desfilaria apenas em Nilópolis. Pois é, nada como o tempo... Minha avaliação é de que o "insólito" título da Beija Flor em 83 - já tema desta coluna - tem muito a ver com o resultado de 82, inclusive.

Vamos ao samba, que pode ser ouvido no post original em sua versão do LP:

Autores: Adil, Dico da Viola e Roça
Puxador: Ney Vianna

No meu tempo de criança
Dei de beber, ouvi cantar os passarinhos
Dei cambalhota pela casca danta
Atravessando o sertão com alegria
E as cascatas
Murmuravam sinfonia
Anunciando o Velho Chico que surgia
Mas é que o tempo passou
Minha vida mudou ...
Assim

Vem mergulhar
No meu mundo de água doce
O navegante foi quem trouxe
Gaiola, batelão e ubá


Bate batéia, na peneira fica o ouro
O que cai não é tesouro
Deixa a água carregar
Casei donzelas
Me fizeram oferendas
Fiz mistérios
Criei lendas
Decidi meu caminhar

Oô, oô, oô, oô
Até carranca no meu leito navegou
Lindo cortejo para o mar me carregou
Lá vou eu
Mar afora
Num barquinho prateado
Iemanjá me leva embora

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Postado por Pedro Migão | 02/01/12 - 10:24

outros assuntos

O Julgamento do Carnaval

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Bom, com a passagem no Ano Novo, tem início oficial o carnaval carioca. Já no próximo domingo inicia-se a temporada de ensaios técnicos das escolas, ainda que as obras no Sambódromo só devam se encerrar na semana anterior ao carnaval.

E nossa coluna "Samba de Terça" sai um pouquinho de seu foco para tentar dissecar um pouco assunto muito criticado e pouco analisado de forma objetiva. Embora não seja especialista "stricto sensu", venho falar de tema que precisa, a meu ver, de uma atenção especial: o julgamento das escolas.

Antes de qualquer coisa, o julgamento possui um problema básico: quem coordena o júri, define os critérios e escolhe os nomes é a própria Liesa, Liga Independente das Escolas de Samba. Ou seja: julga quem faz.

Isso é básico em auditoria, por exemplo: quem faz não audita. O mesmo raciocínio pode ser adotado por analogia para o julgamento do carnaval: as escolas não podem estar responsáveis pela sua avaliação no desfile. No mínimo, para diminuir a influência dos mandatários da entidade sobre o júri, porque sempre há o receio de que uma nota baixa para as escolas dos mandatários da vez da instituição signifique estar fora no ano seguinte.

Que fique claro que não estou afirmando que ocorre o que disse acima. Estou falando em hipótese.

Além desta questão, os próprios critérios de julgamento, a meu ver, precisam não somente ser revistos como terem sua aplicação feita de forma correta. Vamos por partes.

Hoje os jurados são muito mais "fiscais de erros" que propriamente julgadores: pontos são descontados pela ausência de elementos ou erros ocorridos no desfile, não se premiando a criatividade ou a excelência. Além disso, mesmo dentro destes parâmetros há quesitos nos quais há problemas de julgamento.

Há outra questão: os quesitos de ordem "plástica" - Alegorias, Fantasias, Conjunto - acabam sendo mais decisivos que os quesitos "de pista" (bateria, samba enredo, evolução, harmonia). Uma penalização nestes últimos é bem menor que nos primeiros.

O leitor quer um exemplo? O Salgueiro foi justamente campeão em 2009. Mas seu samba jamais, repito, jamais poderia ter tido todas as notas máximas como teve. Outro exemplo foram as notas de Harmonia da Beija Flor este ano de 2011: eu estava ao lado do último módulo de julgamento, alas e alas passaram sem cantar o samba, e qual foi a nota? Dez.

Para 2012 há duas inovações que particularmente me preocupam muito: a adoção da nota mínima 9,0 e o "décimo extra".

Com esta nota mínima e o uso dos décimos, as diferenças entre as escolas ficam mais difíceis de serem analisadas. Grandes e pequenos erros não terão muita diferenciação, o que nivela por baixo. Por exemplo, o sensacional samba da Portela não terá notas muito diferentes que o sofrível "auto ajuda" da Acadêmicos do Grande Rio.

Outra "inovação" é o décimo extra, o "10,1". Este já foi testado em anos anteriores e voltará este ano, sem contar no julgamento oficial. A idéia é "premiar" as melhores escolas, já que o julgamento, na prática, não é comparativo. Sinceramente, acho inócuo.

Mais uma mudança é que serão apenas quatro módulos de julgamento, não cinco. Isso irá melhorar a fluidez das escolas, pois as longas paradas para apresentação dos casais de mestre sala e porta bandeira e da comissão de frente acabavam"quebrando" bastante a evolução. Como reflexo desta diminuição apenas a menor nota será descartada, o que nivela ainda mais por baixo o carnaval.

Aliás, nem estas paradas para apresentação destes dois quesitos seriam necessárias, se os jurados pudessem avaliar em todo o seu campo de visão. É outro problema do julgamento.

E o que pode ser feito para tornar mais acurado o julgamento?

Antes de mais nada, respeitar o princípio básico de auditoria e tirar das escolas o julgamento. Contratar uma entidade independente - ou a própria Riotur - para selecionar os jurados, manter os nomes em sigilo e assim tirar o peso político das agremiações.

Outro ponto é separar a nota em parte descritiva e parte comparativa. Tal e qual feito na ginástica, as escolas teriam uma "nota de partida" se cumprissem todos os requisitos determinados para aquele quesito. A partir daí, a nota seria comparativa.

Obviamente, o padrão de notas teria de ser diferente: notas de 5 a 10, sem os décimos e com os meios pontos. A nota de partida poderia ser nove, por exemplo, e o ponto restante comparativo.

Os critérios de julgamento de cada quesito também devem ser modificados a fim de tirar o peso dos "fiscais de erros" e premiar a excelência. E a nota deve ser dada pelo que acontece em toda a avenida, não somente à frente do julgador.

Também valeria a pena, a meu ver, dar pesos aos quesitos de acordo com sua importância: mestre sala e porta bandeira e comissão de frente não podem ter o mesmo peso de samba de enredo, por exemplo.

Claro que é uma situação hipotética e nunca vi nada que sequer indicasse que este tipo de coisa tenha acontecido, mas um eventual presidente desonesto pode definir o carnaval apenas subornando o casal de uma outra agremiação com R$ 400 ou 500 mil, por exemplo. Basta este "cair" em frente a todos os jurados e pronto.

Privilegiar os quesitos de "pista" também poderia ser uma forma de diminuir a influência do poder financeiro sobre a festa, com pesos maiores para estes.

Não esgoto o assunto aqui. Amanhã, 03/01, e quinta feira irei mostrar quesito a quesito no Ouro de Tolo e os problemas que o julgamento de cada um deles tem, inclusive na formação dos jurados.

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Postado por Pedro Migão | 26/12/11 - 15:36

em cima da hora 1989

Num Passe de Mágica

Nossa coluna "Samba de Terça", a última do ano, traz uma escola já enfocada na série original - com o maior samba enredo de todos os tempos, "Os Sertões" - com um samba que, se não é um dos maiores de sua história, é bastante pitoresco: é o único samba enredo da história do carnaval carioca dedicado exclusivamente ao Revéillon.

Como estamos na semana do Ano Novo, o último texto do ano pode ser considerado "temático": Em Cima da Hora 1989, "Num Passe de Mágica". Escolas como a Beija Flor em 1997 e a Acadêmicos do Dendê em 2004 também se referem ao revéillon, mas dentro de enredos com outras temáticas. O texto foi publicado originalmente na semana do reveillón de 2010 no Ouro de Tolo .

A escola de Cavalcanti - onde uma vez fui jurado no concurso da rainha de bateria, mas esta é outra história - havia passado pela última vez no Grupo Especial em 1985, mas atravessava tempos difíceis. Chegara a estar no terceiro grupo no ano anterior, sendo promovida com o vice-campeonato - atrás apenas da campeã Tupi de Brás de Pina, hoje extinta.

Os carnavalescos Regina Celi e José Leonídio desenvolveram um enredo que buscava mostrar toda a temática, a esperança e o ritual do Ano Novo: os orixás, a festa, o estourar do champanhe, a cor branca e os demais aspectos da festa.

Entretanto, a escola atravessava dificuldades. Se hoje, vinte anos depois e com todo o crescimento deste grupo no carnaval carioca há problema de falta de recursos financeiros, imaginem naqueles tempos. Ainda mais vindo do que hoje se chama "Acesso B", terceiro grupo, e abrindo o desfile do sábado de carnaval, o que é uma situação bastante problemática para qualquer escola de samba - o público ainda está frio e os jurados costumam ser mais rigorosos, até pela falta de referencial.

A Em Cima da Hora abriria o desfile do sábado de carnaval, 04 de fevereiro de 1989. Além das dificuldades naturais de uma escola que vem de um grupo inferior promovida e abre o desfile, a azul e branca enfrentou uma forte chuva durante o seu desfile, o que a prejudicou mais ainda.

As fantasias eram simples e, como se pode ver no vídeo que está disponível aqui , a escola veio com um contingente de componentes bastante desfalcado. Por outro lado, pode-se ver a ginga dos passistas, pura arte, e uma bateria cadenciada. O curioso é que o vídeo é interrompido duas vezes para entrarem entrevistas com integrantes da escola seguinte, a Tupi de Brás de Pina.

Além da chuva, a escola sofreu com fantasias e alegorias extremamente simples, reflexo da falta de recursos. Isso fica claro observando-se as imagens.

Com todas as dificuldades, a escola ainda teria de enfrentar um grupo onde cairiam quatro escolas entre dez agremiações. O descenso de quatro agremiações tinha como objetivo receber escolas vindas do Grupo Especial, "inchado" com 18 escolas e que rebaixou um número maior a fim de contar com apenas 16 para o ano de 1990.

A apuração trouxe o resultado esperado: o nono e o penúltimo lugar e o rebaixamento ao Grupo 2 - atual Acesso B - com 182 pontos. Entretanto, é um samba histórico pelo ineditismo do tema, que jamais seria trazido novamente de forma isolada, como nunca, também, havia sido enredo antes.

Vamos à letra do samba, que o leitor pode ouvir no post original :

Autores:
Nunes, Jorginho das Rosas, Reinaldo Vilas e Bigo

Puxadores:
Rocha e Adilsinho

Vou levantar o astral
Fazer o meu carnaval e cair na folia
Erguer a taça de cristal
Transformar minhas lágrimas em fantasia
Qual será o orixá
Que reinará os novos dias
Como num passe de mágica
Com muito mais sabedoria

Noite bela
Assista a missa meu amor na catedral
Põe o vinho sobre a mesa
E convida o pessoal


Adeus ano velho
Felicidade para o ano que vem
Que a paz se harmonize em seu interior
Quando os anjos disserem amém
No sorriso da criança uma nova esperança
O seu grito está no ar
Acenda em seu peito aquela chama
Dê um abraço em quem te ama
E traga alegria pra seu lar
Seja rico ou seja pobre todos fazem reveillon
Nas esquinas pelos bares
Em casa ou nos salões
Com pierrot e colombina, serpentina pelo ar
O povo de braços abertos

Se confraterniza feliz a cantar
Oh divina luz que me conduz e ilumina o meu viver
Como é linda a passarada
Numa revoada ao amanhecer


O colunista deseja feliz ano novo aos leitores, e em 2012 estaremos de volta com textos inéditos.

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Postado por Pedro Migão | 17/11/11 - 11:32

mocidade independente 1971

Rapsódia de Saudade

De volta após um interregno, nossa coluna traz mais uma republicação. Espero na semana termos um texto inédito - provavelmente "Velho Chico", da própria Mocidade.

Antes, informo que o Ouro de Tolo está dando cinco exemplares do livro referência "As Escolas de Samba do Rio de Janeiro", de Sérgio Cabral (recém-lançado) e mais dois cds do Grupo Especial para 2012. Para concorrer basta acessar o Ouro de Tolo e tentar acertar de que escola e ano é a foto da contracapa do livro, que é de minha autoria. A foto também se encontra no post.

A coluna de hoje foi publicada originalmente em 03/11/2009. No post original pode-se ver a sinopse original, áudio e algumas fotos .

Hoje farei uma homenagem a um dos maiores compositores do samba enredo carioca, capaz de ganhar um samba em 1957 e outro cinquenta anos depois, em 2007 - ele faleceu em novembro de 2006, sendo, na prática, um "samba póstumo". Falo de Mestre Toco, maior vencedor de sambas da Mocidade com 12 vitórias. Antes de passarmos ao nosso samba de hoje, queria agradecer o inestimável auxílio do Fábio Fabato, que cedeu todas as imagens da matéria de hoje, além de informações sobre o carnaval.

Nosso samba é de 1971. A Mocidade já era conhecida por ser "uma bateria cercada por uma escola de samba", comandada pelo grande Mestre André. Entretanto, tinha grandes sambas naquela época, e "Rapsódia de Saudade" é um exemplar significativo. Chega a ser uma injustiça se dizer que a verde e branca da Zona Oeste não possui sambas dignos de entrar no panteão dos melhores de todos os tempos.

O enredo, de autoria de Gabriel do Nascimento e desenvolvido por Clóvis Bornay, buscava contar a saudade e o sentimento através de uma série de músicas e poemas relacionadas ao tema. No post original há a sinopse original, escaneada. Reparem nos agradecimentos às autoridades na primeira página. Este material também é interessante para mostrar que, naqueles tempos, também haviam sinopses longas. Ou seja, não é exatamente devido a isto que os sambas atuais vem perdendo em qualidade.

Mestre Toco, em um samba curto - vinte versos - soube sintetizar o sentimento presente no enredo, compondo um dos maiores sambas da história da verde e branca de Padre Miguel. Não é exagero dizer que não fica nada a dever a outros sambas enfocados nesta série, como "Sublime Pergaminho", por exemplo.

Uma curiosidade é que a palavra "célica" é um neologismo do compositor. Em sua visão, significa "celestial", e foi criada a fim de se encaixar com a bela melodia do samba sem atrapalhar sua métrica. Eram tempos em que não se precisava de "condomínios" nem de investimentos multimilionários. Bastavam o talento e a caneta.

A Mocidade foi a sétima escola a desfilar no domingo de carnaval, 21 de fevereiro. A análise do grande Albino Pinheiro, publicada na revista "Manchete", fala por si mesma:

"Já se ouve o som fantástico. Nosso governador (Negrão de Lima) se entusiasma: "Esta é realmente uma das melhores baterias da cidade". E, não resistindo ao apelo quentíssimo daquele som, acompanha com gestos ritmados a escola que se aproxima. O Rei do Carnaval, Joaquim Meneses, que se mantém há horas ao lado do governador, acha-se também na obrigação de se empolgar. Mas o bastão real, a coroa, a fantasia, as botas e a sua própria figura frustram a alegria que ele pretende mostrar. É o maior momento do desfile até agora.

A bateria da Mocidade Independente há muito é um dos mais caros patrimônios da cultura popular de nossa cidade. O que Mestre André cria e recria sobre o ritmo de sua bateria é impossível de se descrever. Basta que se diga que aquele povo todo, amassado, esmagado, empurrado há mais de treze horas, se levanta inteiro, lepidamente. Enquanto o som da bateria é ouvido, é impossível permanecer quieto. Pela primeira vez vejo o gordo do imenso farnel levantar-se. A bateria foi mais forte que seu apetite. A pista continua a congestionar-se.

Mas o secretário de Turismo, Levi Neves, comenta: "Se não houver invasão, não é carnaval". Com isso, ele quis dizer que o grande desfile tem público cada vez maior e não há avenida que suporte tal entusiasmo. A massa acompanha o bonito samba da Mocidade e quando chega no verso: "Então componho um poema singular", o coro cresce e a Avenida inteira se une. A harmonia de povo, bateria e escola de samba marca um dos mais belos momentos do carnaval de 71. A emoção foi grande. O bem que a Mocidade nos fez se reflete no comentário geral. O policial do meu lado, que há quarenta minutos reagia com cara feia à invasão da pista, está com outra fisionomia. Ele é jovem ainda e não parece ser carioca. Olha para o meu braço, vê meu nome e o da revista e quase humildemente olha para mim e diz: "Que coisa, hein, moço?".

Um bom samba acaba com qualquer tendência para a violência. O espetáculo continua."


A bateria da escola contribuiu para este clima de devaneio vivido durante a passagem da escola pela Candelária.

Apesar do belíssimo samba e do bom desifle, a escola obteve apenas o nono e penúltimo lugar na apuração, com 86 pontos. Entretanto, não houve rebaixamento naquela ocasião. Uma curiosidade: a décima e última colocada foi a Unidos de Padre Miguel, sua "rival" e praticamente vizinha de quadra.

No post o leitor pode ouvir e se deleitar com o samba, em sua versão original. Abaixo, a letra dele. O puxador era o famoso Ney Viana, de grande sucesso posterior nos primeiros dois títulos da escola de Padre Miguel.

"Canto
Faço do samba minha prece
Sinto que a musa me aquece
Com o manto da inspiração
Ao transportar-me pelas asas da poesia
Ao som de linda melodia
Que vai fundo no meu coração

Então componho um poema singular
Rememorando obras célicas
Do cancioneiro popular

Oh, divina música
Tua magia nos envolve a alma
Tua sutileza nos seduz
Pois emanas a luz que inebria e acalma
Tu és a linguagem dos cantores
Tuas entonações nos inspiram amores

Música
Nos traz saudades coloridas
Dos trovadores e serestas
E das canções sentidas"

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